sexta-feira, 15 de outubro de 2010

“Entre o oi e tchau” (2)

Foi-se embora pra outra pátria por que:
-“...Meu pai, nessa terra de desdentados é difícil pintar um sorriso que não seja amarelo. Olha só pra minhas tintas. Eu ainda tenho azul, vermelho, verde, branco e preto mas amarelo, nunca que chega. Estou na terceira bisnaga e já tenho que comprar outra. Eu preciso...preciso ir pra outros lugares aonde as cores me sejam mais necessárias, mais igualitárias e...
-Isso é sonho de moleque e o que nós vivemos é realidade
-Não a minha, pai, não a minha
-Não importa, quero te ver feliz. Eu mais tua mãe te “juntamo” uns trocado. Agora pega e vai-te embora pintá esses quadro, antes que eu me arrependa
-Tchau pai, obrigado!
-Tchau e te cuida!
Saiu daquela casa onde morava praticamente desde quando se conhecia como gente. E agora era diferente porque era gente grande e queria porque queria fazer acontecer
Atravessou o continente, conheceu bastante gente, que assim como ele também carregavam sonhos, ritmos, notas e cores
E depois de todo esse tempo fora achava que o cinza sempre imperava, sempre o emoldurava
Não sabia o porquê mas algo de muito estranho acontecia
Não lhe faltava dinheiro, saúde, nem amigos. Distantes sim, mas amigos
Gostava de cores quentes, mas isso no contato com a tela parecia indiferente. Saía um acinzentado que só
Num repente, desses que se tem poucas vezes, depois de acordar e engolir apressado o café da manhã, pegou um avião de volta pra onde um dia foi o seu lugar
Talvez, pensava ele, ainda fosse, como tantos outros lugares
Precisava resgatar algo dentro dele e foi mais ou menos assim que aconteceu:
-Oi pai!
-Oi meu filho! Dá um abraço!
-Pai é que...
-Não precisa nem falar!
Mesmo com toda saudade, foi fazendo pose pra sua cria pintar, um lindo sorriso amarelo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário