
O primeiro acorde virá forte. Marcante. Daqueles momentos que nos mantém imobilizados, presos ao nada
Reféns de um sentimento e preço do resgate é conseguirmos recuperar a memória e tentar entender o que aconteceu nos últimos dez segundos
Logo depois vem um Em no momento em que se tenta se discernir entre fantasia e realidade
Um D7(9) no intuito de manter as raízes, o vínculo com alguma coisa,o algo em comum
Mas daí te dou Bm/F# e todos aqueles traços por mais insignificantes que fossem, que todos os seres humanos tem independente de cor e de raça se esvaem de sua memória
O Ebm7(11) te faz ficar sem identidade alguma e isso poderia fazer você se perder, mas G6 te mostra que é muito mais que isso. É como se dissesse: - Se perder de quê? De quem?
Essa história de esquerda, direita, esquerda, direita, desde quando éramos crianças, ali, de fraldas, tentando, tombo após tombo, cheios de cocô e mijo, naquelas fraldas que pra eles estavam limpinhas, cansou. Cansou
Daí vem o Bb7(13) que talvez indique alguma coisa
Talvez seja esse o caminho que desde bebezinhos nós tentamos ir e alguém sempre segurava a nossa mão ou nos pegava no colo e daí tínhamos que recomeçar tudo de novo
Só que não é sempre que se escutam esses acordes
Sabe do que estou falando?
Quando se toca um C#m(7M e 9)/G# não se espera nada de nada mais. É simplesmente algo que aparece na sua vida, a gente faz e vai embora
Eu não estou mais perdido, simplesmente deixo a coisa toda fluir até que eu sinta pra onde devo ir
Isso fica claro depois com o Gº, porque ele é um acorde solitário mas pode fazer mais barulho e ter mais força do que eu e você juntos, Ele está ali pra ser o que tiver que ser. É o que deveríamos fazer
Mas podemos ser também o G7(9) que é reflexivo, pensa, mas não deixa de fluir. Não deixa a sua essência amarrada em pré-conceitos. O que causa conflito com o Ab6 que é todo sistemático e com o Ab7M que é todo verborrágico
E é aí que está a maravilha
O grande encontro em um ponto de alguma esquina em Brasília.
Ali, de quina, 90 graus. Não pra ver quem é mais forte porque o F(6 e 9) coloca tudo isso por terra, faz todo conflito se tornar perto dele uma palhaçada
Como daquela vez que você viu o seu tio se vestindo de Papai Noel porque entrou na sala correndo. Ele não te esperava estar ali e muito menos você, que sabia que aquela não era hora de criança ficar acordada. Mas isso era uma daquelas inúmeras bobagens que tinham te ensinado. Era uma das inúmeras coisas que tinham te colocado na cabeça e que naquele momento não fazia a menor diferença. Era pequeno
Por que o que tinha descoberto ali na sua frente, com ele suando e colocando a barba postiça de qualquer jeito era que Papai Noel não existia de fato
Era igual a esse C maior que existe dentro de cada um de nós. Um símbolo, uma referência, um valor diferente que damos pra ele
Entende o que quero dizer?
O D/A amansar, apaziguar as coisas porque senão tudo fica num conflito que só e não é isso que é a vida
Pode-se achar estranho continuar pelo Fm6/Ab e nem sei se é o mais fácil, mas através dele se percebe que está no caminho certo pra onde quer que se queira ir
Mas deixa eu falar uma coisa que eu entendi. Ele é um acorde que é quase o “não sentimento” ,um dos mais materialistas que conheço. Ele é como se fosse a passagem, uma rotatória pro universo que tem vários caminhos. Ele é o senso de direção
Quem quiser ter um algo mais com esse acorde só vai ter dor de cabeça porque ele é uma passagem, como já disse. Nada mais
Eu sei que o que a gente quer é não se sentir solitário. Podemos estar até sozinhos, mas solitários nunca
De uma forma cromática do G até o B, tocada em uma dinâmica crescente, não importando se é maior ou menor ou que acidentes vão acontecer até lá... é pra quem quer ter outra pessoa. Não obsessivamente, de posse, doente, mas que queira trocar, se relacionar, dar e receber
E quando eu tocar Gb7(#11) você vai se apaixonar, não tem jeito. E o que é ridículo é que pode até não ser por mim, mas vou te despertar esse sentimento
Mas se eu realmente te quiser é só te mandar um Abº na seqüência, que daí não tem jeito. É minha
O problema é que quando estamos apaixonados, geralmente ficamos tão cegos e tolerantes que parecemos fantoches do coração
Vêm aquelas posições que nos incomodam, aquele cheiro de cigarro, os atrasos nos encontros, não sair tanto com os amigos, fixação
Então existe C/Bb que eu toco pra que nunca se perca a comunicação que pra mim é essencial
Agora se a história não for comigo, jamais venha chorar depois de um Bb7(9 e 11), porque meu ombro não vai ser tão amigo assim
E a canção se perdeu de mim, mas encontrou seu fim no momento em que a comecei, no momento em que a executei, no momento em que a terminei
Esse é o propósito de tudo
Achá-los
Achar-nos
Achar-nos-los
Isso tudo sem deixar de fluir.
Nenhum comentário:
Postar um comentário