sexta-feira, 15 de outubro de 2010

“Nada sobre você”


Suas olheiras evidenciavam que há muito tempo não tinha uma boa noite de sono. Nem uma noite sequer de completo descanso.
Nada que a fizesse sentir-se mais revigorada para um novo dia, uma nova história.
Ela estava apenas acordando e seus olhos estavam apenas se abrindo mas antes mesmo disso acontecer, sabia que lá estava ela, de novo, começando.
Deitada sobre uma cama de casal, com lençol e edredom quase jogados ao chão, sua pele era tão branca que se fazia confundir com a fronha do travesseiro. Via um certo charme nessa cútis, meio Thom Yorke.
Não achava que o sol que penetrava entre as frestas da janela do seu quarto a faria melhor. Nem qualquer coisa naqueles dias. E eles teimavam por vir. Um após o outro.
Precisava fazer alguma coisa pra sair daquela situação. Tinha algumas horas antes de ficar zonza e fraca a ponto de não fazer nada. Absolutamente nada.
A inércia a estava castigando
Pensou que com calma poderia se levantar, sair do quarto e ir pra sala. Até mesmo pra cozinha, fazer algo pra comer. Bem, poderia fazer um sanduíche mas não iria comê-lo. Faria apenas pra não se esquecer como era. Um lanche simbólico, afinal, desde que saiu do soro do hospital, só se alimentava com aquelas sopas consistentes mas de gosto horrível.
É verdade que o tempo passava, mas havia coisas à sua volta, que pareciam sempre estar do mesmo jeito. As mesmas viagens de feriado prolongado, aquele velho, finalmente, desejo de ter um namorado, o telefone que não tocava nas noites de sábado, o amor por alguém que não havia encontrado, o ódio pela irmã do quarto ao lado, querer ir e desistir de um lugar que nunca havia estado, sonhar sabendo que na realidade é tudo diferente, pessoas perguntando - "como vai você ?", sem se importar realmente.
A mesma merda de expectativa de vida.
Pra ela tudo isso era imutável.
Poucas são as semelhanças quando estamos felizes de quando estamos tristes. Mas ainda somos o que somos, embora às vezes não pareça e ela sabe muito bem disso.
Estava ali. Ansiosa por nada. Sozinha.
Pensou que há muito tempo não devolvia agrados, sorrisos, abraços das pessoas que realmente a queriam bem. Ela sentia quando isso acontecia, mas não sabia o porquê não o fazia.
Talvez ficasse embaraçada entre seus cabelos e suas idéias.
Talvez fosse lenta pra essas coisas como uma carta que vem de longe. Mas lhe ocorreu uma coisa mais sincera.
Era a tal da consciência, clamando lugar maior em sua vida. Maior do que sua mente conturbada.
Seu corpo ainda que pouco, contorcia.
Não era a fome. Não era o frio
Quem sabe a febre? Quem sabe o vazio?

(... quero acordar. Preciso acordar! Preciso... acordar!)
Sentia, às vezes, que dentro dela havia mais vida do que seu corpo podia suportar. Por exigência da vontade, queria bater a cabeça de encontro à parede. Sentir um galo abrindo a testa. Ver a pele doída, esticada, marcada. Era raro de se querer, mas vez por outra, queria.
Já estava sem controle. Outro cochilo, outro despertar. Dormir era um paliativo pra sua inquietude.
Percebeu que precisava se sentir um pouco cansada, usada pela vida que dentro dela habitava, pra querer fechar os olhos e descansar. Como se dissesse para o mundo que após um longo dia, tudo o que precisava era de uma boa noite de sono.
Foi num estalo, estava de pé.
Foi num repente ou coisa assim.
Era ela dando fim pra algo que não havia começado.
Não era seu o desejo de ficar naquele quarto. Remédios, odor, afago. Vez por outra, se lembrou, vinham rostos conhecidos para vê-la e o que mais chamou a sua atenção era que todos tinham um doce olhar maternal.
Tão rápido apareciam, tão rápido iam embora. Era o que ela estava fazendo. Dando seus primeiros passos, mas não como um bebê que não sabia andar, porque isso ela tinha feito todos esses anos sem chegar a lugar algum. Agora, depois de tanto tropeçar, percebeu que precisava de um lugar que se sentisse segura. Um lugar que pudesse manter seus segredos, desejos, sonhos e mentiras em perfeita harmonia.
Há muito tempo era isso que ela queria, mas até um minuto atrás não tinha dado um só passo nessa direção.
Agora, era só o que ela fazia.
E ia e ria, ria e ia ,ia, ria, ia

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